o curtume
- Iberê do Nascimento

- 19 de jul.
- 21 min de leitura

Estiagem prolongada.
Nenhuma gota d’água.
Ribeirões vazios.
Terrenos de roça estorricados.
Alho, milho, feijão.
Mandioca, banana, café.
O alho secou, o milho desfez-se em palha.
Zé deixou a Freguesia. Foi para a cidade.
Arrumou uma colocação no Curtume do JoséJaque, que ficava atrás do Campo do Manejo.
Na Toca tinha uns barracos de aluguel. Pepe, o senhorio. Ali era bom porque ficava bem perto do trabalho. Zé ajeitou-se numa vaga junto com uns ciganos de fala estranha. Vinham de longe. Zenóbio e Zara. Dividiam as custas.
A cigana até que era bonitinha. Mas muito branca.
Abria cartas.
ZÉCURTEIRO
José agora estica couro no curtume. É um curteiro. Dureza se chamar José. Então ele é o ZéCurteiro.
Hoje chegou um carreto lá do matadouro[1].
Mantas fedorentas - de graxa morta e sangue seco - atoladas de moscas bicheiras.
Agora ele vai colocar as mantas de molho, em água, para amaciar. Deve levar uns dez dias.
PORQUE NÃO ME UFANO DE MEU PAÍS[i]
É que tem muito José da Silva. Só na ladeira da Prainha[2] sei de uns trinta. José da Silva. Cada qual mais malhecho que o outro: Zezinho de Beta tem dez mandados nas costas; Zeca da Lavadeira tem um carnê de inadimplência que não acaba mais; o José Pintor tem fama de marido manso; outro ainda desatina em São Jorge do Dragão, nas noites de lua.
E assim vai.
Lojista, deputado, padre, rosacruz, juiz, gente bem de vida mesmo, não tem um.
RELAÇÕES TRABALHISTAS (1)
José ganha por couro pronto.
Ele recebe as mantas que chegam do Matadouro Municipal, as coloca numa cava cheia de água, que é para elas ficarem macias. A água fica com cheiro de podre. José usava um pano para proteger o nariz do fedor, mas não adiantava muito. Aí, não usa mais.
TERRITÓRIO TEM DONO
Acontece que o Pepe, também José e também da Silva, era dono do pedaço e caudilho de todo o entorno do Largo 13 de Maio[3] - território que vai das areias ciscadas de berbigão ali na Prainha até os cocurutos, descampados e luminosos do Morro da Queimada[4]. O Pepe andava incomodado com aquela aberração censitária: tinha muito José da Silva.
Esse Pepe, o dono do pedaço, era também José, só que um Jose de sangue espanhol nas veias. Um hipocorístico, o Pepe. Ficava agoniado cada vez que nascia um menino na área.
“Gente sem criatividade! ”.
E lá mandava um capanga dar uma dura no progenitor, a lista de sugestões embaixo do braço - que é para poupar trabalho. Ezequiel, Gabriel, Miguel. Nomes de anjos e profetas. Balduíno, Albeneir, Lica. Vai que o moleque seja bom de bola. Bernardo, Gustavo, Jean. Modernos.
RELAÇÕES TRABALHISTAS (2)
José ganha por couro pronto, mas tem que descontar as peças que não servem para venda: algumas já vêm furadas – a faca do carniceiro - outras escavadas de berne. Umas renitentes, muito duras para uso. Outras tão friáveis que esfarelam na mão.
Todo cuidado é pouco.
Depois de ficarem mergulhadas em água por cerca de dez semanas, é hora de surrar e roçar as peles com pedra, para remover o restante de carne e gordura.
A seguir, a calagem: o José tem que soltar o pelo entranhado, aplicando uma solução de água e cinzas.
Antes ele fazia isso mergulhando a pele em urina de vaca.
José vomitava e ficava amarelo.
Ainda bem que a modernidade chegou.
SINDICATO DE OFÍCIOS
Depois de chegar ao Brasil teve que arrumar uma nova identidade - precisava apagar o passado. Queria um nome comum. José da Silva – alguém sugeriu.
Pepe não gosta do novo nome.
Desembarcou, clandestino, no Cais da Figueira. Se asilou nos costados da Toca. Até a chapa esfriar.
Convivia bem com o pessoal dali. Canoeiros. Pescadores. Catadores de berbigão. Carvoeiros do Morro da Queimada. Trituradores de concha na Caieira[5].
Pepe foi se enturmando e se acertando na vida. Cercou uns terreninhos, levantou umas casinhas: foi viver de aluguel. Bolou também o Sistema de Coletas e Proteção, que é para dar mais segurança ao pessoal. E como o dinheiro andava curto, o Pepe dava um jeito de adiantar algum – a ágio.
Que belo país, este. Terra das oportunidades!
Cada vez chegava mais gente para se pendurar nos costados da Boa Vista[6].
MIGRAÇÃO
Quando chegava um carreto de mudança, aí então é que o Pepe estrebuchava. Era gente que vinha de longe, fugidos dos sertões e cerrados, ou escorraçados das franjas das grandes cidades.
Mas aí não tinha mais jeito. O sujeito já vinha batizado e crismado. Sorte - dizia o Pepe - que, de tanto José que vinha, eles mesmos se organizavam e já se penduravam numa alcunha que desigualava um do outro. Ou despistava o delegado. Ou o cobrador.
Pois eram tantos, que, no mundo, tantos nomes não haveria de existir. Assim, para não muito pensar, consagravam, lá mesmo na ribeira da terra natal, tornada em água benta, o nome José. Deste modo se multiplicavam em homônimos, e então se dividiam em apelidos que, ao menos, lhes conferiam uma identidade mais singular.
E eram tantos e de nomes tão iguais que, por ausência de linhagem que lhes diferenciasse o prenome, lançavam mão de gentílicos esquisitos, como eram esquisitos os lugares de onde vinham. Assim como houvera, há muito tempo, um tal nazareno, também José, mas que originário, por óbvio, de Nazaré - minúscula comuna tornada maior que seu próprio tamanho por incorporar-se, de algum modo, ao cânone ocidental.
OUTRO JOSÉ: JOSÉ DE NAZARÉ
Este o nome do artesão que, estoico e resignado, cedeu sua alcova ao anjo seminal. Que engoliu em seco um ciúme danado, um ressentimento dos traídos em silêncio. Que guardou seu segredo, como quem conserva uma carta de novela - relicária e reveladora - trancada num baú de madeira. Meses e meses de torturante castidade. Semanas de cruciantes dúvidas. Não se atrevia a aquiescer à verdade, que os de sua gente, mais e mais, já sabiam. Sublimou seu monstruoso medo e, em sonhos, foi avisado da vida e da morte, das provações e dores que viriam. Das chagas e das pragas.
O sonho é a imagem do homem diante de sua própria aflição.
JOSE PEPE RECEBE A VISITA DO JOSÉ BICALHO
- Pois veja, seu Jose.
- Pepe, por favor.
Pepe não gosta do novo nome.
- Pois veja...
O Bicalho tinha mania de falar “pois veja” quando queria entrar em assuntos delicados.
- A Inspetoria – continuou - está apurando umas movimentações estranhas aqui pelos lados da Prainha. Escrituração falsa de terrenos...agiotagem...taxa de proteção...
Quando dizia Inspetoria com I maiúsculo o Bicalho certamente se referia à repartição mais temida nestes novos tempos: a Inspetoria de Obras, Posturas e Higiene.
- Pois veja, seu Pepe! Nós-da-Inspetoria não queremos trazer transtornos para suas atividades. Sabemos que o senhor está se dando muito bem como empreendedor! Arrojado, sempre entabulando novos negócios. Investindo aqui, investindo ali. Diria mais: um visionário, seu Pepe!
Pepe pouco falava. Muito ouvia.
- Pois veja, seu Pepe! Nós-da-Inspetoria podemos nos dar muito bem com o senhor.
GITANOS (1)
Poucos perceberam a chegada. Uma carroça arrastada por uns cavalos mochos de flancos encovados. Deram pouso no paiol abandonado, ali no Beco do Curtume[7], atrás do Campo do Manejo[8].
Vieram de longe. Cruzaram de San Pelayo ao Vale de Atriz, no altiplano junto à cordilheira. De lá chegaram a Cuenca, no Equador. Passaram, ainda, por Santa Cruz de La Sierra e Corumbá. Das terras paraguaias, atravessaram as serras e os campos de pasto. Deram no mar. E à terra depois do mar. A Ilha.
O mais velho assemelhado a um beato-de-são-sebastião: barbas cinzas, secas como palha. Olhos chupados. Paletas saltadas como um burrego faminto. Uns panos rotos, descoloridos dos dias.
Com ele, a moça: pele branca como a pedra carrara. Argolas brilhantes, da largura da romã. Turbante cor de uva, cordão de moedas ao redor.
Abria cartas.
RELAÇÕES TRABALHISTAS (3)
José ganha por couro pronto, descontado o pelame sem serventia e a boia do dia - inhame ou mandioca cozida no feijão, e uns nacos de toicinho.
Aos sábados o JoseJaque, dono do curtume, matava o pombo mais velho do pombal e assava no moquém.
Era um prêmio pelos bons serviços, dizia o JoseJaque. Ele tinha lido que era preciso carregar de sustança a boia dos curteiros. Eles rendiam mais no trabalho. Isso ajudava também a controlar a superpopulação no pombal. Eles procriam como ratos, esses seres monogâmicos.
Ele riscava um X na folhinha do calendário cada vez que servia a boia. Depois era só fazer as contas e descontar do valor da paga pelo couro pronto.
ASCENSÃO DE UM PRÓCER
JoseJaque, o dono do curtume, pregou na porta rota do galpão uma placa com o título nobiliárquico que concedeu a si mesmo.
JoséJaque - Empresário & Capitalista.
Empresário&Capitalista anunciou solenemente, no almoço do último sábado: “Meus Operários! O Futuro está chegando”.
Dirigia-se ao ZéCurteiro e ao gitano Zenóbio, seus coureiros, num modo de saldar os novos tempos industriosos, um viva à modernidade que chegava à velha Ilha: “Eu até diria: já chegou o Futuro! ”
Empresário&Capitalista, certamente, estava se referindo à introdução do tanino vegetal e dos sais de cromo no processo de curtimento. As novas técnicas substituiriam o uso de bosta de pombo, tornando mais saneado o local de trabalho, diminuindo o fedor e os miasmas decorrentes.
Os higienistas já estavam de olho no seu curtume! Andavam fiscalizando tudo! [ii]
RELAÇÕES TRABALHISTAS (4)
Depois da calagem, ZéCurteiro tinha que fazer o curtimento, que era para amaciar as peles. Com os pés descalços, ele amassa as peles numa mistura de água e esterco de pombo - daí aquele pombal repleto - até atingir a maciez desejada. Aí reside a arte do ofício: palpar até encontrar a textura adequada para um couro de bom valor de uso. Cada manta leva em torno de duas a três horas para ficar bem amaciada.
Quando voltava para casa, na Toca, no final do dia, os meninos folgados que vadiavam pelo entorno do Menino-Deus, já saiam a gritar:
“Já vem o Pé-de-Bosta! Já vem o Pé-de-Bosta! ”
POMBOS
José andava preocupado. Guardadas em ouvidos atentos remoía cada palavra que o JoséJaque andava a propalar aos quatro ventos da cidade. José não era muito de falar - mas a ouvir não se furtava.
“O futuro já chegou! Vem aí a força motriz do progresso! Viva a Máquina, a substituir a mão de obra arcaica! ”
José pegou medo do futuro.
Temia que tivesse o mesmo destino dos pombos do Curtume, que aos poucos iam deixando de ter serventia. Tanino vegetal! Sais de cromo!
Nem para fabricar esterco eles serviriam mais.
Nem os pombos.
Nem ele.
Teria que aprender coisas novas, se adaptar aos novos tempos. Não sabia ler nem escrever. A cabeça já não era tão boa. Como aprender?
Certa manhã de sábado, o JoséJaque, anunciou aos operários:
“A carga de tanino vegetal chegou! Já está no Cais da Figueira só esperando o selo da alfândega! O Novo Dia chegou! ”
Dito isso, olhos embargados de orgulhosa emoção, escancarou a tranca do pombal. De início, desconfiadas da insólita oportunidade de liberdade, os pombos arrulharam indiferentes. Mas depois, pelo sim pelo não, apressadas, elas ganharam o céu, em voos tortos e erráticos, desacostumadas que estavam à amplidão de horizonte.
ZéCurteiro engoliu em seco. Seus temores estavam se tornando realidade.
Como num gesto simbólico, regressivo, sentou os pés na bacia de esterco, e esfregou-os na lama fecal, num misto de gozo, desespero e raiva.
Pegou o caminho da Toca, em direção ao barraco de ripas e ouviu, talvez pela última vez, os meninos folgados que vadiavam no entorno do Menino-Deus:
“Já vem o Pé-de-Bosta! Já vem o Pé-de-Bosta! ”
FUTURISMO
Os negócios vão de vento-em-popa. Ou melhor: a todo vapor, como exige a linguagem dos novos tempos. O mercado, lá com suas leis, demanda por mais e mais produtos de couro. Já se contavam em dezoito os curtumes estabelecidos na cidade.
No José Mendes[9], um grande, de propriedade do MiguelLobo, localizado na primeira curva da estrada do Saco dos Limões - cujos dejetos escorriam sobejamente na praia denominada, não sem razão, Praia do Curtume[10].
Na Praia de Fora tinha um que usava urucum na tintura e produzia um couro acarminado que andava a fazer muito sucesso nas bolsas das mulheres modernas da capital da República. Na Tronqueira tinha um especializado em esticar couro de cabrito que servia muito bem a repiniques e pandeiros.
Mas o do JoséJaque - atrás do Campo do Manejo, na travessa do Areião[11] - estava muitos passos à frente. Ao substituir processos arcaicos por técnicas modernas no manejo do couro, o Curtume Senhor Jacques Inc. Ltda. - o antigo Cortume Imperial de antes da República - tomava a dianteira na corrida pela liderança do setor. A adoção de sais de cromo no curtimento simplificou o processo de fabricação e eliminou muitas das etapas preparatórias necessárias pelo método tradicional. Equipamentos motorizados a vapor - encomendados em Manchester, na Grã-Bretanha - faziam rapidamente, e com eficiência, operações como divisão, descarnação e depilação. A produção estava se multiplicando, possibilitando, inclusive, o desenvolvimento de novos produtos para a indústria de estofados, calçados, bolsas, vestuário e acessórios.
Vamos garantir a qualidade e maciez desejada pelos bons consumidores da Ilha. Mas almejamos mercados maiores: França, Oropa e Bahia.
Ass. Curtume Senhor Jacques Inc. Ltda.
OS HIGIENISTAS
A começar pelo novo nome[12], a cidade queria se consolidar como uma capital moderna e civilizada, rompendo de vez com o arcaico passado imperial. Era preciso sanear os ares e as águas. O entorno da Praça XV[13] - repleto de cortiços, casebres e mercadores de rua – precisava receber tratamento urbanístico adequado para as novas construções - sobrados em estilo eclético e art nouveau pululavam das pranchetas dos arquitetos. Uma nova classe social surgia, impulsionada pelo acúmulo de capital que o comércio portuário proporcionava. Estes novos senhores do dinheiro – e do poder político – passaram a se instalar nessa região central. As moradias populares e de pescadores foram empurradas para regiões mais periféricas como a Toca, a Pedreira e a Tronqueira.
“Higiene é Civilização” era o lema da Cruzada Higienista. O indivíduo - saudável, produtivo e moralmente são - é o principal ativo de uma Nação. A cidade – ventilada, saneada e moderna – é a sala de visita do país.
Para tal empreitada de transformação urbanística desejava-se um Haussmann ou, no mínimo, um Pereira Passos[iii]. Mas por aqui tínhamos o Bicalho!
O INSPETOR DE OBRAS (1)
Bicalho é o Inspetor de Obras, Posturas e Higiene. Fez carreira no serviço público, galgando todos os degraus “com pernas próprias” – dizia, de peito aberto. Contínuo. Amanuense. Escriturário. Fiscal de Posturas. Chefe de Seção.
Agora é o Inspetor de Obras, Posturas e Higiene.
Bicalho tem negócios com Pepe. Cortiços. Casas de cômodos.
Pepe – mandachuva da região da Prainha, na Toca – constrói uns casebres de braça-e-meia e o Bicalho faz vista grossa. Pronto: vira sócio.
Bicalho tem negócios também na região da Figueira. Umas Casas de Víspora.
No Porto, uns armazéns.
Bicalho logo percebeu o potencial da fábrica de couros do ZéJaque.
TRANSIÇÃO: A BANDEIRA
JoséJaque até trocou o retrato na parede. O vetusto Dom Pedro, apesar de simpático, parecia fora de moda. Bonachão das letras, atiçava um sentimento de atraso e contemplação. Os tempos exigiam modernidade e ação, atributos de um verdadeiro comandante - um “marechal de ferro”
Mas a bandeira... Ora, não há como negar a imponência daquele brasão de armas imperial! Substituí-lo por um simplório céu de estrelas - que mais lembra o Bilac quando perdeu o senso – isso não!
E os raminhos? Os raminhos de tabaco e café - símbolos de nossa riqueza – simplesmente desapareceram!
JoséJaque manteve o pendão imperial devidamente hasteado. Dentro do armário – por preca
NOVOS TEMPOS
É preciso compreender que os tempos mudaram. A sociedade está em transição. A monarquia acabou. O escravismo acabou!
“E pensar que já lancei Vivas! ao Imperador! E que até uns crioulinhos eu tinha de minha propriedade! ”
Ele tinha orgulho da própria transformação. De ZéJaque a Sr.JoséJacquesInc.
“Não é pouca coisa. ”
Mas agora a hora é de dar Vivas! à República!
Do alto da janela do sobrado recentemente construído, bem na esquina da rua do Senado com a rua das Flores[14], o Sr.JoséJacquesInc. fitava a serena Baía do Sul - que a esta hora da manhã, estava apinhada de pequenas embarcações cruzando as águas entre a Terra Firme e a Ilha. Botes, baleeiras e canoas. Farinha, lenha, carne seca. Potes e caçarolas de barro.
Do alto da janela do sobrado, na colina da rua das Flores, olhava tudo aquilo – o mar da baía, o sol que rebrilhava o branco das gaivotas, o azul do céu em contraste. E era um olhar de proprietário, como se dono fosse, não somente do sobrado, dos móveis da mais nobre madeira, dos lustres do mais refulgente cristal, das mais delicadas porcelanas - mas também da paisagem e dos morros e dos barcos e da cidade. Era um olhar de proprietário!
Trazia na mão a xícara de porcelana branca tingida com o melhor café do Brasil - que é o melhor café do Mundo!
Plantation[iv].
A outra mão na algibeira, a tilintar uns níqueis. Eis porque me ufano de meu país.
Ora, ora, o Sr. JoséJacquesInc.!
Radiante diante do movimento dos barcos.
“Agora sim a moeda circula. Uma e outra ainda se acumula. Essa é a mágica. Aí dá para gerar negócios. A riqueza se espalha! ”
Entre um gole e outro do mogiana de casta, reconstituía sua brilhante trajetória: “Quem diria! ”
Como um Rubião, admirava-se das linhas tortas de Deus que, de alguma maneira, tornavam certas as sentenças do destino.
Há apenas oito anos era um pobretão, nascido na beira do mangue do Prejibaé. Como a tantos, de tantas gerações, o destino lhe reservara a pesca dos bagres e corvinas, e a cata dos berbigões. Escarafunchar os buracos dos catanhões como meio de vida. Este deveria ser o destino a cumprir.
Mas as linhas tortas rabiscaram outro rumo. Lembra como se fosse hoje: fazia uns serviços de roçagem na propriedade do João Manoel Fagundes, ali pelas bandas do Saco dos Limões, um português viúvo sem filhos, solitário e rico. O galego era dono do Cortume Imperial, o pioneiro deste ofício na Ilha. Pois que era caprichoso o ZéJaque, e de boa força nos braços, e - diferente da gente dali - era inimigo da mândria. Pois que caiu nas graças do viúvo que, há tempos, buscava alguém em quem pudesse confiar uma parceria nos negócios. Pois o velho Fagundes pegou confiança, e fazia gosto em jogar responsabilidades e avivar a inteligência do ZéJaque. Botou gosto pelas leituras e aritméticas. Mas, sobretudo, os segredos do mundo dos negócios.
Das letras mostrou-lhe Ramalho Ortigão - de onde aprender lealdade à monarquia. E depois Eça - de onde proteger-se do vazio da retórica, dos sofismas e falácias.
Das matemáticas trouxe o pensamento duro das contabilidades, dos juros e das precificações.
José Jacques, um bom astuto. Aprendeu os argumentos das palavras vãs e os noves fora dos números ambíguos. Logo superou os mais atinados da Ilha nas habilidades da negociação.
João Manoel Fagundes era um monarquista convicto. O golpe militar republicano o colocou desiludido com os rumos do mundo, a tal ponto que se lhe instaurou a neurastenia - doença malsã da modernidade - que consumiu suas forças até a morte, já na virada do novo século. Em testamento, deixou metade dos bens ao fiel JoséJaque, a quem ensinara tudo o que sabia sobre negócios e couros. A outra metade coube à Irmandade do Senhor Jesus dos Passos[15], para garantir os recursos ao atendimento dos necessitados no Imperial Hospital de Caridade.
“Quem diria! “, admirava-se o Sr. JoséJacquesInc.
“Há menos de dez anos eu era apenas o ZéJaque do Prejibaé! “
GITANOS (2)
Um ceticismo molengo pairava no ar.
Alvíssaras: estas há muito não aportavam no Cais da Figueira. O vento rajava, e nada de boa notícia. A míngua pairava sobre a Ilha. Só trabalho de pouca paga. Quando havia. A gente andava descrente.
Não se tinha mais a quem confiar: aos alvitres, duvidava-se; a promessas, ressabiava-se; as arengas, nos palanques, entravam e saíam pelos ouvidos; as homilias, nas capelas, traziam sono na manhã do domingo.
Como fiar-se, então, em baralhos e buzos?
Zara abria cartas.
Também desconfiava que às perguntas do mundo não nos cabe resposta - e, menos ainda, certeza.
O INSPETOR DE OBRAS (2)
O Bicalho apareceu na porteira do Curtume:
- Pois veja seu Jaque. Não é fácil a minha missão!
Embaixo do braço, um calhamaço de papéis amarelados, o timbre desgastado.
- Pois veja seu Jaque. Os códigos de postura...
A Cruzada Higienista!
- Pois veja seu Jaque. O senhor precisa sanear seu empreendimento. No mundo moderno, numa cidade que se quer civilizada, não se admite mais... Veja: águas servidas escorrendo a céu aberto...Viveiro de moscas! E esse pombal... Certamente o senhor já ouviu falar nos miasmas que os pombos transmitem. São como ratos, só que com asas. Infecção gravíssima...
- Mas com que dinheiro? O velho Réis continua ativo. Só que não vale mais nada. Os preços estão pela hora da morte. O Mil-Réis nem faz cócegas na Libra. Como comprar as máquinas inglesas? Como importar tanino? – diz o JoséJaque.
E arremata, atirando já uma desculpa no ar: “Coisas do Encilhamento do Dr. Ruy[v]
- Pois veja seu Jaque: Nós-da-Inspetoria não viemos até aqui para complicar seus negócios. Trazemos também soluções. Podemos indicar um bom financista, baluarte da modernização da cidade. O Sr. Pepe. Visionário que é, ele pode dispor de um bom aporte para alavancar seus negócios. E o que é melhor: com módico ágio!
O FILÓSOFO ALEMÃO
“Deus está morto! ” – disse o filósofo[vi]. “E nós o matamos! ”
O que virá de nós? Nada mais faz sentido.
Não sabemos viver assim.
O novo século começou com uma certeza.
E muitas dúvidas.
Colapso dos valores absolutos. Vazio.
In Gold We Trust.[vii]
GITANOS (3)
Como enquadrar tantos destinos ali - postos à mesa – a revelar-se, prontos a serem desmascarados? Como traduzir tantas mensagens, confusas, expostas no pano verde?
Sim. Diante das infinitas possibilidades, das inesgotáveis combinações entre arcanos, naipes, números e figuras haveria de se firmar algum nexo.
Zara abria cartas.
Já, um tanto, desconfiava que às perguntas do mundo não nos cabe resposta - e, menos ainda, certeza. No entanto, aferrava-se a prognósticos de baralho como outros o faziam a sonhos e outros ainda a dísticos chineses embrulhados em pãezinhos. Afinal, se nem ela acreditasse, quem haveria de?
Mais e mais notícias disparatadas brotavam a cada jogada do baralho cigano. Valete de Copas e sua Dama e seu Ás. Certamente uma sequência irresistível para o jogo de azar. Mas qual serventia teria ao jogo do destino?
NOTÍCIAS DO BARALHO CIGANO (2)
Estiagem prolongada.
Nenhuma gota d’água nas bicas do Morro do Antão.
Nada na Fonte da Carioca.
Ribeirões vazios.
Terrenos de roça estorricados.
PAISAGEM DA JANELA (1)
Zé tinha folga no Curtume aos domingos, um sim outro não.
Zé gostava de passear no Cais da Figueira. Via os barcos chegando e saindo – e eram muitos, no começo. Velas belas, mas já apareciam uns à vapor. E como eram grandes!
Zé gostava de ver aquele formigueiro de gente carregando seus fardos para lá e para cá. Estivadores, carregadores, carroceiros. Marinheiros, calafates, tanoeiros.
Para onde vai tanta gente? Portos distantes onde pousar, mares imensos de navegar, horizontes infinitos de não se ver.
Tonéis de azeite, barricas de aguardente. Caixas de peixe seco. Fardos embrulhados em juta. Engradados. Latas. Quem compra tanta mercadoria?
Três apitos e a fumaça que sobe e logo escorre pela calha do norte.
PAISAGEM DA JANELA (2)
Agora o Zé tinha folga no Curtume somente num domingo por mês. Gostava de passear ali na região do cais e ver as meninas das casas de vísporas. A mais animada era a Casa Verde. Tinha até vontade de entrar, namorar uma delas, mas o dinheiro era curto. Mas seu coração batia mais rápido era pela ciganinha. Ela era miudinha, tinha o cabelo curtinho, bem diferente das outras moças. Cortado na altura do queixo, aparado na nuca, deixava o pescoço à mostra. Pele muito branca.
Abria cartas.
NOTÍCIAS DO BARALHO CIGANO (2)
A manhã de janeiro nasceu sob a fúria de uma ressaca avassaladora. Ventos fortes levantavam ondas que socavam as faixas da costa, e faziam avançar as marés, refluindo os mangues e as ribeiras. A várzea da Fonte Grande, pletórica, encharcada de lodo, acolheu a semente das febres. Veio tanta água de nunca se ver. O barro escorregou do sopé do Antão, resvalando pela rua das Olarias. Invadiu quintais, barracos, os cortiços, arrancando tudo. A Pedreira, o Beco do Pedro Soares, o entorno do Campo do Manejo. As águas escancaravam o sangue dos curtumes.
O córrego do São Luis[16] transformado em banhado, recebeu os dejetos de sargaços e paus de canoas – e capivaras gordas arrastadas pela surpresa violenta da maré.
As águas do Córrego do Trajano[17], ao refluírem, levantaram esqueletos de cadáveres então submersos - por vinditas de traição ou razias rasteiras.
O impaludismo, fruto das águas infectas, proliferou com a súbita vitalidade das larvas e mosquitos. As encostas da Boa Vista e do Antão, a Toca da Prainha, os cortiços do Campo do Manejo foram as regiões mais atingidas. Ali viviam soldados, lavadeiras, libertos. Gente empurrada do centro da cidade para o cinturão maciço dos morros.
NOTÍCIAS DO BARALHO CIGANO (3)
Dor de cabeça intensa e calafrios que mais pareciam os arrepios da terçã. Dores lancinantes explodiam como lavas expulsas dos ossos. O rosto, sem ar, ficava azul. Tosse de sangue.
Então, a morte.
Como tudo que chegava à Ilha, ela também veio do mar. Atracou no Cais da Figueira, em silêncio, camuflada sob a sirene de um navio. Ela veio com a modernidade, a vapor.
Clandestina, desceu a rampa, misturada aos passos apressados dos marujos, desejosos por diversão junto às meninas da Figueira. Beijou-as à boca, transpondo o íntimo de cada uma.
Depois, sem pedir licença, entrou porta a dentro, invadiu os lares, as alcovas, serviu-se às mesas, postou-se nas salas. Uma visita que ninguém estava preparado para receber.
A Hespanhola.
PAISAGEM DA JANELA (3)
Zé gostava de ver o movimento dos barcos. Nem eram muitos os que apareciam agora. Os navios a vapor – cada vez maiores – não cabiam mais na profundidade da baía. Precisavam de carvão, docas, guindastes - e o Cais da Figueira não tinha não. Era a decadência.
O Chico Oliverio[viii] disse, certa vez, que o planeta não só gira, como atropela o destino.
Os tempos mudaram. Os grandes dias se foram.
Muita coisa já não existe na cidade: o curtume, por inútil; as posturas, por arcaicas;
Pepe.
Sr.JoséJacquesInc.
O Bicalho.
As cartas, por certeiras, permaneceram.
Zara montou um consultório de Tarô de Marselha. Bem-conceituado. Bom dinheiro entrando. Ganhou fama por ler nas cartas a tragédia que se abateu sobre a cidade. Ninguém mais quer ser pego desprevinido!
Zé gosta de trazer os gêmeos a passear no antigo Cais da Figueira, falar das histórias que a cidade não vive mais. Eles são miudinhos como a Zara. Branquelinhos como a Zara. Lindos como a Zara.
Parece que só nós estamos ainda por aqui.
A vida, trago isso comigo, é feita de coincidências canhestras.
Não sempre - eu diria.
Mas também não nunca.
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Notas
[1] Até a década de 1950, a região hoje denominada Balneário Estreito (na época conhecida como Praia do Matadouro) era uma pastagem onde o gado vindo da região serrana esperava pelo abate. As partes mais nobres eram destinadas ao Frigorífico Hoepcke (que ficava embaixo da Ponte Hercílio Luz, e que deveria ter sido chamada Ponte da Independência). As partes consideradas menos nobres (fígado, bucho, etc.) eram comercializadas na região continental, principalmente as próximas ao atual Estádio Orlando Scarpelli, na Rua do Fato (atual rua Tereza Cristina). Pronto: o morador do atual bairro do Estreito passou a ser chamado de "Tripeiro".
[2] Trecho mais ao sul do Morro do Menino-Deus, no sopé de onde hoje situa-se o Hospital de Caridade, e Morro do Mocotó, na borda da praia, em direção ao Saco dos Limões.
[3] No final do século XIX foi iniciado a aterramento da Praia do Menino Deus, que circundava o morro do mesmo nome, com o objetivo de sanear as áreas lodosas da cidade. Esse aterro formou o Largo 13 de maio. Atualmente rua Bulcão Vianna, entre as avenidas Hercílio Luz e Mauro Ramos.
[4] Morro da Queimada: localizado no alto do Morro do Mocotó , na vertente sul, para o lado do Saco dos Limões. Neste local se retirava lenha e se fazia queimadas para fazer carvão.
[5] Uma das primeiras atividades econômicas da Ilha colonial, as caieiras eram fornos para a queima de conchas e fabricação de cal. A fabricação artesanal de cal na região central da antiga Desterro se concentrava em terrenos mais altos e preparados como eiras na encosta do Saco dos Limões.
[6] Morro da Boa Vista: corresponde à parte sul do Maciço Central, onde situa-se a ladeira do Menino-Deus e o Imperial Hospital de Caridade. O bairro da Toca ficava no sopé da Boa Vista.
[7] Beco do Curtume ou Travessa do Areião: localizava-se no trecho sul da atual Avenida Mauro Ramos, entre as atuais Rua Menino Deus e Anita Garibaldi.
[8] Campo do Manejo: local onde hoje está situado o Instituto Estadual de Educação. Ali existiu um quartel militar, com treinamento ("manejo") de tropas militares.
[9] José Mendes: localidade situada entre a parte sul do atual Morro do Mocotó e o bairro Saco dos Limões. Seu nome deve-se ao português José Mendes dos Reis. Ele era dono também de uma ilhota situada na baía sul, na qual tentou o cultivo de videiras, mas que não vingou, donde o nome Ilha das Vinhas.
[10] Praia do Curtume: localizada no bairro José Mendes até hoje mantem este nome, derivado de um antigo curtume da região que lançava seus dejetos na praia.
[11] Travessa do Areião: trecho Sul da atual Avenida Mauro Ramos entre a Rua Menino Deus e Anita Garibaldi. Conhecido também como Beco do Curtume.
[12] A mudança do nome de Desterro para Florianópolis aconteceu em um contexto político turbulento no final do século XIX. Desterro era o nome original desde que foi elevada à categoria de vila, no século XVIII, em referência à padroeira Nossa Senhora do Desterro. Após a instauração da República (1889), a cidade tornou-se reduto dos federalistas, de oposição ao governo republicano-militar de Floriano Peixoto. Em 1894, as forças centrais tomaram a cidade, perpetrando o chamado Massacre de Anhatomirim - que até hoje permanece como cicatriz dolorosa da cidade. Por decreto estadual do então governador Hercílio Luz o nome da cidade mudou para Florianópolis (“Cidade de Floriano”), ou seja, caso raro em que a cidade homenageia seu algoz.
[13] Em 1889, logo após a instalação da República, o antigo Largo da Matriz ou Barão da Laguna, teve sua denominação alterada para Praça XV de Novembro.
[14] Rua das Flores: atual rua Pedro Ivo.
[15] Criada em 1765, por lideranças locais, a irmandade começou como guardiã da imagem do Senhor Jesus dos Passos e passou também a ser mantenedora e responsável pela administração do Imperial Hospital de Caridade, fundado em 1789. A instituição nasceu de uma necessidade de Joana de Gusmão e do irmão Joaquim Francisco para atender aos enfermos da região.
[16] Córrego de São Luis: nascia na parte leste do Maciço e desaguava nas águas da baía norte, próximo da Pedra Grande, atual bairro da Agronômica.
[17] Córrego do Trajano: atravessava o Largo da Carioca (atual rua Sete de Setembro e Praça Pio XII, passando entre os fundos das ruas Trajano e do Ouvidor (atual rua Deodoro), na altura da rua do Príncipe (atual Conselheiro Mafra), onde desaguava na baía sul, na altura da Alfândega. Depois foi canalizado.
[i] Paródia do original “Por que me ufano do meu país”, título de um livro escrito por Afonso Celso, publicado em 1900, logo após a proclamação da República (1889), no qual o autor procurava estimular o patriotismo e o orgulho nacional, numa linguagem exaltada e idealizada, descolada da realidade do país.
[ii] O movimento higienista em Florianópolis no início do século XX foi um dos fenômenos mais marcantes da transformação urbana e social da cidade. Inspirado nos conceitos de saúde pública da Europa, influenciou o pensamento urbano e moral. As doenças, a pobreza e o atraso eram decorrentes da falta de limpeza, ventilação, saneamento físico e social. Com isto, desviava a responsabilização das desigualdades e iniquidades decorrentes da estrutura econômica.
[iii] Georges-Eugène Haussmann, (1809 – 1891), responsável pela reforma urbana de Paris; Francisco Pereira Passos (1836-1913), ex-prefeito do Rio de Janeiro, então capital federal, responsável por uma profunda intervenção urbanística na cidade.
[iv] Plantation é um sistema de agricultura baseado em latifúndios (grandes propriedades), monocultura (produção de um único produto) e voltado para a exportação. Historicamente, foi imposto pelas potências coloniais europeias e se caracterizou pelo uso intensivo de mão de obra escravizada em colônias da América, África e Ásia, para o cultivo de produtos como cana-de-açúcar, café e algodão.
[v] Referência ao ministro da Fazenda Ruy Barbosa no período de 1889 a 1891 no primeiro governo republicano de Deodoro da Fonseca. Como ministro foi responsável pela implantação da política do “Encilhamento”, com emissão de moeda sem lastro e expansão do crédito, trazendo como consequência a inflação e a desvalorização da moeda (mil-réis), que perdeu mais de dois terços de seu valor internacional em menos de uma década.
[vi] Friedrich Nietzsche (1844-1900). Em a “A Gaia Ciência” (Die fröhliche Wissenschaft, 1882), um homem corre pelo mercado com uma lanterna acesa em plena manhã, gritando: “Procuro Deus! Procuro Deus! E quando as pessoas riem dele, ele responde: “Deus está morto! Deus continua morto! E fomos nós que o matamos! ”. É uma metáfora para o colapso das certezas – religiosas e morais – que até aí traziam sentido à vida humana. A pergunta central de sua filosofia: como o homem viverá sem Deus? Como criar novos valores e novos sentidos para a existência humana fora do “divino”?
[vii] Versão satírica da frase original da moeda americana In God We Trust. Após a “morte de deus” a sociedade preencheu este vazio com dinheiro – uma nova forma de idolatria.
[viii] Chico Oliverio: Mentiroso clássico da cidade, morava na Praia de Fora. Seu nome tornou-se sinônimo de pessoa mentirosa. Quando se deseja chamar uma pessoa de mentirosa ela é chamada de Chico Oliverio.







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